
Brasil
Coxinha de 60 dias e fermentação longa transformam a gastronomia brasileira
Técnicas ancestrais de fermentação revitalizam pratos brasileiros e desafiam a velocidade da indústria.
Visão geral
A revolução da fermentação longa nas cozinhas brasileiras
A cada dia, mais chefs e cozinheiros estão resgatando uma técnica ancestral para criar pratos que desafiam a lógica da velocidade industrial: a fermentação longa. Seja em pequenas padarias, restaurantes badalados ou bares inovadores, o uso do tempo como ingrediente principal transforma e potencializa o sabor dos alimentos, dando origem a produtos autorais e surpreendentes para o paladar brasileiro.
No **Fermenta Bar**, aberto por **Léo Andrade** e **Fernando Oliveira** da Companhia dos Fermentados em São Paulo, a inovação ganhou forma inusitada: a "chucruxinha". Essa inusitada coxinha começa com uma massa de puba, a mandioca fermentada por pelo menos 60 dias, recheada com frango e chucrute – ambos também resultado de processos fermentativos. O resultado é um petisco que foge do trivial e comprova como o tempo, aliado à ciência dos microrganismos, pode elevar a comida de boteco a um novo patamar.
Outro exemplo é o restaurante **Corrutela**, também na capital paulista. Lá, a sobremesa de ovos nevados, elaborada originalmente por **Mariana Arcolino** e atualmente conduzida por **Letícia Ferreira**, utiliza jenipapo verde fermentado por até 15 dias para alcançar um azul vibrante, tudo sem aditivos industriais. Essa abordagem não é restrita à confeitaria: pães, linguiças e manteigas da casa também passam por longos processos naturais que garantem texturas, aromas e estéticas exclusivas.
Mais que moda, um resgate ancestral
Apesar de parecer novidade, a fermentação é uma das formas mais antigas de transformação de alimentos. Atualmente, ganha nova relevância justamente por confrontar o ritmo acelerado dos ultraprocessados. Segundo especialistas reunidos no 8º Paladar Cozinha do Brasil, essa escolha tem três motivações principais:
- Potencializar sabor e textura sem aditivos químicos.
- Trazer identidade e imprevisibilidade, pois o tempo age de maneira única sobre cada preparo.
- Recuperar práticas ancestrais, fundamentais para o futuro da alimentação.
No **Fermenta Bar**, cada item do menu passa por algum tipo de fermentação. O drinque com missô de pinhão, por exemplo, só atinge sua complexidade máxima após dois anos de maturação. Kombuchas fermentadas por 21 dias e vinagres de hibisco acompanham as famosas chucruxinhas do bar, mostrando que sabor e criatividade caminham juntos.
Ciência do tempo: o segredo dos microrganismos
Fermentar não é apenas esperar. É criar condições perfeitas para que leveduras, bactérias e fungos transformem a matéria-prima. O processo altera completamente o perfil sensorial dos alimentos e sua conservação. Enquanto a indústria busca padronização e rapidez, chefs como os do Corrutela e do Fermenta Bar apostam no tempo como aliado da qualidade e originalidade.
A fermentação longa também impacta a cultura alimentar. Memes na internet brincam com o desejo das mães de serem como uma massa de fermentação longa – que "descansa" por meses. Nessa brincadeira está a comprovação: quando o alimento descansa, sabores e possibilidades insuspeitos despertam.
O futuro da cozinha brasileira
A aposta em processos lentos sinaliza uma tendência crescente na culinária nacional. Valorizando ingredientes locais, criatividade e sustentabilidade, a fermentação longa abre portas para pratos únicos e com forte identidade. O Brasil, terra de diversidade gastronômica, mostra que resgatar o passado é também projetar novos caminhos para o futuro do comer.
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